O objetivo da educação é a virtude e o desejo de converter-se num bom cidadão.
(Platão)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Contribuições de Wallon sobre a Psicomotricidade no Processo de Alfabetização

Henri Paul Hyacinthe Wallon nasceu em Paris, França, no dia 15 de junho de 1879 e morreu em 1 de dezembro de 1962, tendo atuado como médico, psicólogo, político e filósofo. Foi contemporâneo das duas grandes guerras mundiais, sendo o médico responsável pelas crianças vítimas dessas catástrofes e atuante político de posicionamento marxista tendo sido filiado ao partido socialista e posteriormente ao Partido Comunista Francês, sendo durante a segunda guerra, perseguido pela Gestapo.
Segundo Fonseca (2008), Wallon teve grande participação social, extensa produção intelectual e juntamente com Langevin, elaborou o projeto educacional Langevin-Wallon, no qual integraram de forma original conceitos de psicomotricidade.
É conhecido por seu trabalho sobre a Psicologia do Desenvolvimento, de postura interacionista, pois o homem seria formado não somente por influência fisiológica, mas também por influência social. Entre o indivíduo e o seu meio há uma unidade indivisível, a sociedade seria uma necessidade orgânica que determina seu desenvolvimento e consequentemente sua inteligência (FONSECA, 2008, p.15).
Nesse sentido, Nascimento (2004, p. 47) explica:


Tomando a dialética como fundamento epistemológico, Wallon buscou compreender o
desenvolvimento infantil por meio das relações estabelecidas entre a criança e seu ambiente, privilegiando a pessoa em sua totalidade, nas suas expressões singulares e na relação com os outros. Dessa maneira, não propôs um sistema linear e organizado de etapas de evolução psíquica, mas desenvolveu sua teoria buscando compreender os objetivos da criança e os meios que ela utiliza para realizá-los, estudando cada uma das suas manifestações no conjunto de suas possibilidades. Sua teoria expõe a evolução psíquica passando de um campo a outro da atividade infantil, em textos entremeados por termos médicos e neurológicos.


Seu estudo sobre o desenvolvimento cognitivo foi centrado na psicogênese da pessoa completa, mas seu estudo se deu a partir do desenvolvimento psíquico da criança. Entendia que a pessoa tem de ser vista na sua totalidade, por todos os seus aspectos: o cognitivo, o afetivo e o motor, um não seria mais importante que o outro.
Wallon acreditava que a cognição está alicerçada ao que ele deu o nome de campos funcionais: o movimento, a afetividade, a inteligência e a pessoa. O aspecto motor como aquele que se desenvolve primeiro e serve tanto como atividade de busca de um objetivo como função de expressar algo em relação a outro indivíduo; a afetividade atua como uma forma de mediação das relações sociais expressadas por meio das emoções, já a inteligência relaciona-se diretamente com as questões da linguagem e o raciocínio simbólico, ou seja, habilidades lingüísticas e a capacidade de abstração. Por fim, mas não de menor importância, a pessoa como o campo que coordena os demais, e responsável pelo desenvolvimento da consciência e da identidade do eu. Diante disso, Nascimento (2004, p.53) afirma que:


A construção da pessoa acontece na medida em que a criança, opondo-se ao outro, distancia-se do meio onde está envolvida. A sucessão de elementos de ordem afetiva e cognitiva se alternam no processo de desenvolvimento, sublinhando os aspectos subjetivos e objetivos na construção do “eu” e do mundo. O recorte corporal permite uma objetivação da imagem e, portanto, a consciência de um “eu” subjetivo, que o espelho reflete.



A questão da motricidade é muito forte na teoria walloniana, compreendida como um instrumento privilegiado de comunicação da vida psíquica. A criança, que ainda não possui a linguagem verbal, exprime por meio da motricidade suas mais diversas necessidades, traduzidas, portanto, de uma forma não verbal e com aspectos afetivos de expressão de bem ou mal estar. Nesse sentido Fonseca (2008, p.15) esclarece:


A motricidade contém, portanto, uma dimensão psíquica, e é um deslocamento no
espaço de uma totalidade motora, afetiva e cognitiva, que se apresenta em termos
evolutivos segundo Wallon sob três formas essenciais: deslocamentos passivos ou
exógenos, deslocamentos ativos ou autógenos e deslocamentos práxicos.

Conforme Fonseca (2008) inicia-se a evolução com os deslocamentos passivos ou exógenos. Isso se configura já que o bebê é totalmente dependente social, ou seja, precisa sempre das ações dos adultos para norteá-lo, por isso é a partir da motricidade desses adultos que o bebê interage com o meio. As suas necessidades não são satisfeitas por suas próprias ações dessa forma ele as comunica para os adultos por meio de diferentes impulsos. Em consequência dessa dependência cria-se um vínculo afetivo muito grande entre a criança e o adulto a qual é a responsável pelo início do psiquismo do bebê.
Posteriormente, a evolução da motricidade segue para os deslocamentos ativos ou chamados autógenos, que surgem a partir dos deslocamentos descritos anteriormente. Esses deslocamentos são respostas e reações do próprio corpo em relação ao meio. Iniciam-se as práticas de interação, integração e de movimentos do corpo no espaço, com os outros e com os objetos. Nessa fase as competências de locomoção, tonicidade e equilíbrio atingem um grau de maturação do sistema nervoso.
Por fim, surgem os deslocamentos práxicos. Esses deslocamentos ocorrem a partir da visão do mundo exterior e não pelo eu interior da criança, por meio do visual e da audição que proporcionam a ela uma nova visão da realidade e dela própria. Podendo dizer então que se inicia a criação de hábitos sociais por meio das práticas entre o corpo e meio de forma global. Wallon (1970 apud FONSECA, 2008, p.17) afirma que:


O movimento não é um puro deslocamento no espaço nem uma adição pura e simples
de contrações musculares; o movimento tem um significado de relação e de interação afetiva com o mundo exterior, pois é a expressão material, concreta e corporal de uma dialética subjetivo-afetiva que projeta a criança no contexto da sociogênese.
Essa evolução da motricidade em coordenação com o meio atua de forma integrada com as reações interoceptivas, proprioceptivas e exteroceptivas. As primeiras são os reflexos neonatais como a respiração, de bem ou mal-estar, insegurança motora dentre outras. As proprioceptivas de relação mãe e filho, de postura, segurança gravitacional e a emergência do eu e as exteroceptivas que são preparadas a partir da antecedente, que seriam as práxias, interações com objetos, a comunicação, a consciência corporal e de estabilidade emocional.
O desenvolvimento para Wallon é um processo pelo qual a pessoa passa de um estado de profundo envolvimento com o meio e no qual não se distingue e passa a se reconhecer como diverso dele, ou seja, desenvolver é se enxergar em oposição ao meio. Esse desenvolvimento ocorre com a sucessão de estágios, oscilando entre a afetividade, na busca da construção do eu, e a razão (inteligência/cognição) como forma de entender a realidade, acontecendo de forma constante, mas não de forma linear e fixa podendo ainda assim existir retrocessos. Esses retrocessos não fazem com que o que foi adquirido seja suprimido, mas um amplia as competências adquiridas pelo outro. Completando esse pensamento, Nascimento (2004, p.51) indica que “a descrição das etapas evidencia o que Wallon denomina princípios funcionais – integração, preponderância e alternância -, que definem o desenvolvimento como um processo descontínuo, marcado por rupturas e crises”.
O primeiro dos estágios é o impulsivo-emocional que abrange o primeiro ano de vida, quando o bebê não sabe diferenciar o que é ele e o que é o mundo. Nesta fase, ocorre a predominância da afetividade a qual orienta suas primeiras reações, sendo que as relações com mundo físico se dão a partir das emoções, sendo a motricidade a expressão delas, tem-se a afetividade impulsiva, emocional, que se nutre pelo olhar, o contato físico expressando-se pelos gestos, mímicas e posturas.
Seguindo tem-se o estágio do sensório-motor e projetivo que vai até os três anos de idade, onde o interesse é voltado para a exploração sensorial e motora do mundo físico, o que está pensando projeta em atos motores, vai fazendo e pensando ao mesmo tempo, ocorrendo o desenvolvimento da função simbólica. Assim, o cognitivo dá margem ao ato motor, a ideia que a criança tem, ela projeta.
O estágio do personalismo abrange dos três aos seis anos de idade, cuja tarefa principal é a formação da personalidade, constroem a consciência de si, por meio das interações sociais. A criança tenta se compreender e compreender o mundo. Pode expressar o que sente porque já fala, ou seja, a afetividade incorpora os recursos intelectuais, a chamada afetividade simbólica, se expressa por palavras, ideias.
O quarto estágio é o categorial, por volta dos seis anos de idade, o cognitivo auxilia na entrada do mundo da alfabetização, avanços no cognitivo que dirigem o interesse das crianças pelas coisas, para o conhecimento e conquista do mundo externo. No plano motor os gestos são mais precisos, elaborados mentalmente com previsão de etapas e consequências. O último estágio é o da Adolescência, que traz à tona questões pessoais, morais e existencial, pergunta quem sou eu enquanto pessoa no mundo. Iniciada pela puberdade, com as mudanças hormonais. A afetividade encontra-se mais elaborada, mais racionalizada, os sentimentos são elaborados no plano mental, com isso os jovens teorizam sobre seus sentimentos.
A teoria de Wallon possibilitou o início do pensamento psicomotor e a valorização do indivíduo de maneira integral, dando sugestões para muitos outros estudiosos que se apropriaram de seus conhecimentos e contribuíram para o desenvolvimento desse pensamento.


REFERêNCIAS:

FONSECA, Vitor da. Aprender a Aprender: A Educabilidade Cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 1998.

______. Desenvolvimento Psicomotor e Aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.

NASCIMENTO, Maria Letícia B.P. A Criança Concreta, Completa e Contextualizada: a Psicologia de Henri Wallon. In: Introdução a Psicologia da Educação: seis abordagens. Kester Carrara (Org).São Paulo: Avercamp, 2004.]

SOUZA, Rose Keila Melo de e COSTA, Keyla Soares da. O Aspecto Sócio-Afetivo no Processo ensino-aprendizagem na Visão de Piaget, Vygotsky e Wallon. Pará, 2004. Disponível em: http://www.educacaoonline.pro.br/index.php?option=com_content&view=article&id=299:o-aspecto-socio-afetivo-no-processo-ensino-aprendizagem-na-visao-de-piaget-vygotsky-e-wallon&catid=4:educacao&Itemid=15. Acesso em: 25 set 2009.

WALLON, H. A Evolução Psicológica da Criança. São Paulo: Edições 70, 1968.

2 comentários:

  1. Interessante publicação!! A afetividade, segundo Wallon a explica, mostra sua relevância em diversos aspectos da vida do ser humano. Uma das importantes discussões é a relação entre afetividade e aprendizagem. Este foi o tema de uma pesquisa por mim desenvolvida, junto ao Prof. Dr. Sérgio Leite, da Faculdade de Educação da UNICAMP. Deixo aqui o link para o artigo publicado: http://periodicos.puc-campinas.edu.br/seer/index.php/reveducacao/article/view/2852/1954

    Caso interesse, mantenho também um blog sobre educação e tecnologias digitais: http://tecsedu.blogspot.com.br/

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